Poucas obras cristãs descreveram a natureza humana com tanta precisão quanto O Peregrino, de John Bunyan. Publicado no século XVII, o livro acompanha a jornada de um homem chamado Cristão em direção à Cidade Celestial e utiliza personagens, lugares e acontecimentos simbólicos para retratar os desafios da vida cristã. Entre esses lugares está a famosa Feira das Vaidades, uma das cenas mais memoráveis da obra.
Na alegoria de Bunyan, a Feira das Vaidades é um mercado permanente onde praticamente tudo está à venda. Riquezas, honra, reputação, prazeres, posições sociais, opiniões e prestígio são expostos diante da multidão. O problema não está simplesmente na existência dessas coisas, mas no valor que lhes é atribuído. O que é passageiro passa a ser tratado como eterno. O que é secundário torna-se supremo. Pessoas vivem, competem e lutam em busca de bens que, no fim, não podem satisfazer a alma.
Embora Bunyan tenha escrito há séculos, sua descrição parece surpreendentemente atual. Basta observar o funcionamento das redes sociais.
Hoje, a atenção tornou-se uma espécie de moeda. Curtidas, compartilhamentos, comentários, seguidores e visualizações funcionam como indicadores públicos de valor social. Quanto mais atenção uma pessoa recebe, mais importante ela parece ser aos olhos da multidão. Não é necessário vender um produto para participar desse mercado. Muitas vezes, vende-se apenas uma opinião, uma imagem cuidadosamente construída de si mesmo, uma dose de indignação, uma piada ou uma demonstração de conhecimento.
Cada perfil se transforma em uma pequena banca dentro da feira. Todos exibem algo, todos tentam atrair olhares, todos competem por espaço em meio ao ruído constante. A reputação é negociada em praça pública. Uma única publicação pode transformar alguém em referência por alguns dias, enquanto outra pode colocá-lo no centro de uma onda de críticas.
Nesse ambiente, a verdade frequentemente se torna secundária. O valor de uma ideia passa a ser medido pelo alcance que ela produz, não por sua correspondência com a realidade. O que gera mais reações recebe mais visibilidade. O que provoca mais conflito costuma alcançar mais pessoas. A controvérsia torna-se um ativo valioso. O escândalo produz alcance. A indignação produz compartilhamentos. O barulho atrai a multidão.
Essa dinâmica revela algo que a Escritura já denunciava muito antes da existência da internet. Em Mateus 6, Jesus condena aqueles que praticam atos religiosos para serem vistos pelos homens (cf. Mateus 6:1). O problema não é apenas a ação exterior, mas a motivação do coração. Existe uma tentação permanente de transformar a aprovação humana em recompensa suprema.
Por isso, a crítica de Bunyan permanece tão atual. A Feira das Vaidades não é apenas um lugar fictício em uma alegoria. Ela representa uma disposição profundamente enraizada na natureza humana: a tendência de transformar criaturas, reconhecimento e coisas passageiras em objetos de desejo supremo.
Talvez a ironia mais interessante seja que ninguém entra na feira pensando que será seduzido por ela. A maioria acredita que está apenas observando. Entra para acompanhar notícias, seguir debates, compartilhar conteúdos ou manter contato com outras pessoas. Entretanto, pouco a pouco, passa a disputar a mesma atenção que antes observava nos outros. A pessoa chega como espectadora e, sem perceber, torna-se vendedora.
É exatamente nesse ponto que a descrição de Bunyan encontra eco nas palavras de Eclesiastes. O pregador contempla as ambições humanas e conclui que tudo é vaidade, tudo é como correr atrás do vento (cf. Eclesiastes 1:2,14). Da mesma forma, o apóstolo João adverte os cristãos a não amarem o mundo nem as coisas que ele oferece, pois tudo o que pertence a este mundo passa rapidamente (cf. 1 João 2:15-17).
A diferença é que a Feira das Vaidades de Bunyan ocupava um lugar específico na história. As redes sociais cabem no bolso, acompanham seus usuários durante todo o dia e nunca fecham as portas. A feira permanece aberta vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, pronta para capturar atenção, alimentar vaidades e oferecer novas oportunidades para a autopromoção.
O verdadeiro problema não está apenas nas redes sociais. A Feira das Vaidades existia muito antes da internet e continuará existindo enquanto houver pecadores desejando para si a glória que pertence somente a Deus. As plataformas apenas fornecem novas vitrines para uma velha idolatria.
Talvez seja por isso que a imagem criada por Bunyan continua tão poderosa séculos depois. Ela nos lembra que o produto mais perigoso à venda na feira não é o dinheiro, a fama ou a influência.
Muitas vezes, o produto mais vendido somos nós mesmos.
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