Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir supostos evangélicos justificarem a violência do moderno Estado de Israel contra o povo palestino com apelos ao Antigo Testamento, especialmente às guerras de conquista narradas no livro de Josué. Essa leitura não é apenas superficial — ela é teologicamente falsa, moralmente perversa e espiritualmente perigosa.
A Escritura não pode ser usada para santificar aquilo que Deus abomina.
As guerras narradas em Josué não foram:
Foram atos judiciais específicos, ordenados diretamente por Deus em um momento único da história da redenção.
“O Senhor havia decidido endurecer o coração deles para que lutassem contra Israel, de modo que fossem totalmente destruídos, sem misericórdia.”
(Josué 11:20)
O próprio João Calvino, comentando o livro de Josué, foi claro ao afirmar que, se Josué tivesse agido sem ordem direta de Deus, teria cometido crime monstruoso. Ele não romantiza a violência; pelo contrário, afirma que ela seria inumana e criminosa sem mandamento explícito do Senhor.
“Aqui, mais uma vez, a autoridade divina é interposta para absolver completamente Josué de qualquer acusação de crueldade. Se ele tivesse procedido por iniciativa própria a cometer um massacre indiscriminado de mulheres e crianças, nenhuma desculpa poderia tê-lo livrado da culpa de uma crueldade detestável, uma crueldade que ultrapassaria tudo aquilo que lemos ter sido praticado por tribos selvagens mal elevadas acima do nível dos brutos.”
(João Calvino, Comentário sobre Josué, comentário sobre Josué 10:40)
Sem essa ordem divina clara e irrepetível, o mesmo ato seria assassinato em massa, não obediência.
Aqui está o ponto decisivo que muitos se recusam a encarar:
O Estado moderno de Israel não é continuação do Israel bíblico.
Ele:
Trata-se de um Estado secular, fundado por decisões políticas humanas no século XX. Portanto, qualquer tentativa de justificar:
apelando a Josué ou a Deuteronômio, é blasfêmia teológica.
“Não se vinguem, mas deixem isso para a ira de Deus.”
(Romanos 12:19)
A Bíblia jamais ensinou que algum povo, etnia ou Estado possua licença moral especial para matar, expulsar ou oprimir outros povos. Pelo contrário, a Escritura afirma repetidamente que Deus julga a injustiça, venha ela de quem vier.
“O Senhor executa justiça para os oprimidos.”
(Salmos 146:7)
“Ai dos que decretam leis injustas e redigem decretos opressivos.”
(Isaías 10:1)
Quando um Estado pratica violência sistemática contra um povo indefeso, isso não é “cumprimento profético”, mas injustiça que clama por juízo.
O Novo Testamento é inequívoco:
“Nem todos os descendentes de Israel pertencem ao verdadeiro Israel.”
(Romanos 9:6)
“Se vocês pertencem a Cristo, então são descendentes de Abraão.”
(Gálatas 3:29)
“Vocês… agora são o povo de Deus.”
(1 Pedro 2:10)
O Israel verdadeiro hoje não é um Estado, mas o povo redimido em Cristo, formado por judeus e gentios unidos pela fé.
Qualquer teologia que:
não é cristã, é idolatria política com verniz bíblico.
Usar Josué para justificar o sofrimento do povo palestino é:
“Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem chamam mal.”
(Isaías 5:20)
Cristãos não são chamados a:
Somos chamados a:
Conclusão
O genocídio, a expulsão e a opressão do povo palestino não têm respaldo bíblico algum. Diferente de Josué, não há ordem divina, não há juízo revelado, não há mandato celestial.
O que há é pecado — e pecado não se santifica com versículos fora de contexto.
Que a Igreja do Senhor Jesus:
“Felizes os que promovem a paz, pois serão chamados filhos de Deus.”
(Mateus 5:9)