O que é “o que é perfeito” em 1 Coríntios 13?

Por Tiago Knox

Ao ler 1 Coríntios 13, é comum concentrar a atenção no famoso ensino sobre o amor. No entanto, nos versículos 8 a 12, Paulo também explica por que os dons revelacionais eram temporários e qual seria o momento em que deixariam de existir.

Para compreender corretamente essa passagem, basta seguir a linha de raciocínio do próprio apóstolo.

O contraste entre o parcial e o completo

Paulo escreve:

“Agora nosso conhecimento é parcial e incompleto, e até mesmo o dom da profecia revela apenas uma parte do todo. Mas, quando vier o que é perfeito, essas coisas imperfeitas desaparecerão.”
(1 Coríntios 13:9,10)

O contraste é claro.

De um lado estão o conhecimento e a profecia, ambos descritos como parciais. Do outro está aquilo que é completo.

Essa é a chave para entender toda a passagem.

As profecias transmitiam revelações verdadeiras da parte de Deus, mas cada uma revelava apenas uma parcela do todo. O mesmo acontecia com o conhecimento revelacional concedido naquele período. A igreja ainda estava recebendo, gradativamente, a revelação inspirada que Deus entregaria por meio dos apóstolos.

Quando essa revelação fosse concluída, aquilo que era parcial perderia sua função.

O significado de “o que é perfeito”

A palavra traduzida por “perfeito” possui o sentido de completo, acabado ou plenamente desenvolvido.

O próprio contexto mostra que Paulo não está estabelecendo um contraste entre algo imperfeito moralmente e algo perfeito moralmente, mas entre aquilo que está incompleto e aquilo que está completo.

A pergunta, portanto, é: o que completa aquilo que é parcial?

O próprio texto responde: o conhecimento parcial e as profecias parciais dão lugar ao conhecimento completo.

Conhecimento em parte

Paulo afirma que “conhecemos em parte” e “profetizamos em parte”.

Isso não significa que as profecias continham erros ou que o conhecimento revelado fosse falso.

Significa que eram fragmentários.

Cada revelação acrescentava mais uma parte daquilo que Deus estava revelando à sua igreja.

Durante o período apostólico, Deus não entregou toda a revelação de uma única vez. Ela foi sendo comunicada progressivamente por meio dos apóstolos e profetas.

Quando essa revelação foi completada, já não havia necessidade de novas revelações inspiradas.

A ilustração da infância

Em seguida Paulo diz:

“Quando eu era menino, falava, pensava e raciocinava como menino. Mas, quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino.”

A ilustração descreve um processo de crescimento.

A igreja do primeiro século encontrava-se em seu período de formação. Ainda recebia novas revelações e dependia continuamente do ministério apostólico e profético para conhecer toda a vontade de Deus.

Essa era uma fase de infância.

Com a conclusão da revelação apostólica, a igreja alcançou maturidade doutrinária.

Não porque todos os cristãos se tornaram maduros individualmente, mas porque Deus já havia entregue tudo o que pretendia revelar para a edificação de sua igreja.

Assim como um adulto não continua vivendo como criança, a igreja não permaneceria indefinidamente dependente de revelações parciais.

Ver “face a face”

Paulo continua:

“Agora vemos as coisas de modo imperfeito, como um reflexo obscuro em um espelho; mas, então, veremos tudo face a face.”

O contraste continua sendo exatamente o mesmo.

Os espelhos do primeiro século eram feitos de metal polido e produziam uma imagem sem a nitidez dos espelhos modernos. Paulo utiliza essa realidade para ilustrar a diferença entre uma percepção fragmentária e uma percepção clara.

Enquanto a revelação ainda estava sendo entregue, a igreja via apenas partes do quadro.

Quando toda a revelação foi completada, passou a contemplar o quadro inteiro.

A expressão “face a face” reforça essa ideia de clareza. Ela contrasta com a imagem do espelho obscuro. O foco da comparação não é a mudança de lugar, mas a mudança da qualidade da percepção.

“Conhecerei plenamente”

Paulo conclui:

“Tudo o que sei agora é parcial e incompleto, mas, então, conhecerei tudo plenamente, assim como Deus já me conhece plenamente.”

Mais uma vez, o contraste permanece entre o parcial e o completo.

Paulo não afirma que os cristãos se tornariam oniscientes. Somente Deus possui conhecimento infinito.

O ponto é outro.

Enquanto a revelação era transmitida em partes, o conhecimento da igreja também era parcial. Quando Deus concluiu sua revelação inspirada, a igreja passou a possuir plenamente tudo aquilo que Ele decidiu revelar por meio das Escrituras.

Assim como Deus conhece perfeitamente cada um dos seus filhos, nada ficou faltando na revelação que Ele decidiu conceder ao seu povo.

A unidade do argumento

Toda a passagem desenvolve uma única linha de raciocínio.

Primeiro, Paulo afirma que profecias e conhecimento são parciais.

Depois, anuncia a chegada do que é completo.

Em seguida, ilustra essa transição por meio da infância que dá lugar à maturidade e da visão obscurecida que se torna clara.

Em nenhum momento o assunto muda. Paulo permanece explicando o caráter temporário dos dons revelacionais e mostrando que eles existiam para suprir uma necessidade específica durante o período em que Deus ainda estava entregando sua revelação à igreja.

Quando essa revelação foi concluída, aquilo que era parcial cumpriu seu propósito e deixou de ser necessário.

A harmonia com o restante das Escrituras

Essa compreensão está em plena harmonia com o restante do Novo Testamento.

A igreja foi edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (cf. Efésios 2:20). Um fundamento é lançado apenas uma vez.

Judas afirma que a fé foi entregue aos santos “de uma vez por todas” (cf. Judas 3), indicando uma revelação definitiva e completa.

Ao encerrar o livro de Apocalipse, Deus também encerra solenemente o ciclo da revelação profética (cf. Apocalipse 22:18-19).

Essas passagens mostram que a revelação especial teve um período de construção e um ponto de conclusão.

À luz desse panorama, 1 Coríntios 13 descreve a transição entre essas duas fases: da revelação progressiva para a revelação completa. Os dons revelacionais pertenciam ao período em que a igreja ainda recebia o ensino inspirado. Uma vez concluída essa obra, permaneceram as Escrituras, plenamente suficientes para instruir, corrigir, ensinar e equipar o povo de Deus (cf. 2 Timóteo 3:16-17).

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