Como Ler e Entender a Bíblia – Parte 40: Ensinando outros a ler a Bíblia

Por Tiago Knox

Introdução: Uma verdade que deve ser transmitida

Chegamos à última parte desta série. Ao longo dos trinta e nove artigos anteriores, percorremos um longo caminho: começamos entendendo o que é a Bíblia, examinamos sua estrutura, inspiração, autoridade e suficiência, aprendemos princípios de interpretação, estudamos gêneros literários, contexto, linguagem, história da redenção, discernimento e aplicação.

Mas existe uma pergunta que permanece: o que fazemos com tudo aquilo que aprendemos?

Se Deus nos deu sua Palavra para ser conhecida, compreendida, obedecida e ensinada, então o estudo bíblico não deve terminar em nós.

O conhecimento recebido deve ser transmitido.

O cristão que aprende a ler corretamente as Escrituras possui uma responsabilidade: ajudar outros a fazer o mesmo. Isso começa dentro de casa, alcança a Igreja e pode se estender a qualquer pessoa a quem Deus nos dê oportunidade de ensinar.

Ensinar a Bíblia, porém, não significa simplesmente transmitir informações. Significa ajudar pessoas a compreenderem aquilo que Deus revelou, a enxergarem Cristo nas Escrituras, a discernirem a verdade do erro e a viverem em submissão à Palavra.

Nesta última parte veremos como podemos ensinar outros a ler e entender a Bíblia com fidelidade, humildade e responsabilidade.

1. O conhecimento bíblico deve ser transmitido

A Bíblia apresenta repetidamente a transmissão da verdade de uma geração para outra.

Moisés ordenou aos israelitas que ensinassem continuamente os mandamentos de Deus aos seus filhos:

“Repita-as continuamente a seus filhos. Fale delas quando estiver em casa e quando estiver caminhando, quando se deitar e quando se levantar.”
(Deuteronômio 6:7)

A verdade não deveria ficar restrita aos sacerdotes ou aos especialistas religiosos. O povo de Deus deveria conhecê-la e transmiti-la.

Esse princípio continua relevante para a Igreja.

Pais devem ensinar seus filhos. Cristãos maduros devem discipular cristãos mais jovens. Pastores devem ensinar suas congregações. Professores devem formar seus alunos.

A Palavra recebida deve ser cuidadosamente transmitida àqueles que virão depois de nós.

2. Ensinar exige fidelidade ao texto

Quem ensina a Bíblia assume uma responsabilidade séria.

Não estamos autorizados a colocar nossas próprias ideias na boca de Deus.

Por isso, o professor bíblico precisa aprender a distinguir entre aquilo que o texto realmente diz e aquilo que ele gostaria que o texto dissesse.

Paulo instruiu Timóteo:

“Esforce-se sempre para receber a aprovação de Deus, como um trabalhador que não tem do que se envergonhar e que ensina corretamente a palavra da verdade.”
(2 Timóteo 2:15)

Ensinar corretamente exige trabalho.

É necessário observar o contexto, compreender a intenção do autor, considerar o gênero literário, comparar Escritura com Escritura e evitar conclusões precipitadas.

O professor fiel não pergunta primeiro: “O que quero ensinar?”. Ele pergunta: “O que Deus está dizendo neste texto?”.

3. Ensine as pessoas a interpretar, não apenas suas interpretações

Existe uma diferença importante entre ensinar uma conclusão e ensinar alguém a chegar corretamente a uma conclusão.

Um professor pode simplesmente entregar respostas prontas. Porém, isso cria dependência.

Um ensino mais saudável ensina o aluno a observar o texto, fazer perguntas corretas, identificar argumentos, reconhecer contextos e comparar passagens.

O objetivo é formar leitores maduros das Escrituras.

Isso é especialmente importante porque ninguém terá acesso permanente a um determinado professor.

Se ensinarmos apenas nossas conclusões, o aluno dependerá continuamente de nós. Se ensinarmos como estudar a Bíblia, estaremos equipando essa pessoa para continuar aprendendo durante toda a vida.

4. O exemplo de Esdras

Esdras oferece um excelente modelo de alguém comprometido com o conhecimento e o ensino da Palavra.

“Esdras tinha decidido estudar e obedecer à Lei do Senhor e ensinar seus decretos e estatutos ao povo de Israel.”
(Esdras 7:10)

Observe a ordem apresentada no texto.

Primeiro, Esdras estudava a Lei.

Depois, obedecia àquilo que havia aprendido.

Então, ensinava o povo.

Essa sequência é extremamente importante.

O professor bíblico não deve ser alguém que apenas transmite informações que nunca produziram transformação em sua própria vida.

A Palavra deve primeiro confrontar o professor. Depois, por meio dele, alcançar os outros.

5. Ensine com humildade

Conhecer a Bíblia não nos torna superiores aos demais cristãos.

Quanto mais aprendemos, mais percebemos a grandeza de Deus e nossas próprias limitações.

Por isso, quem ensina precisa cultivar humildade.

Tiago faz uma advertência especialmente séria:

“Meus irmãos, não sejam muitos de vocês mestres na igreja, pois sabemos que nós, que ensinamos, seremos julgados com mais rigor.”
(Tiago 3:1)

Ensinar a Palavra é um privilégio, mas também uma responsabilidade.

O professor não deve utilizar seu conhecimento para impressionar pessoas, construir uma reputação ou exercer domínio sobre elas.

Seu objetivo deve ser servir.

A verdadeira autoridade do professor não está em sua personalidade, eloquência ou inteligência, mas na fidelidade com que transmite a Palavra de Deus.

6. Ensine Cristo a partir de toda a Escritura

Como vimos repetidamente ao longo desta série, a Bíblia possui uma unidade extraordinária.

As Escrituras não são uma coleção de histórias desconectadas. Elas apresentam uma única história de redenção que encontra seu centro em Jesus Cristo.

Depois de sua ressurreição, Jesus explicou aos discípulos como as Escrituras apontavam para ele:

“Jesus disse: — Foi isto que eu falei enquanto ainda estava com vocês: era necessário que se cumprisse tudo o que a meu respeito está escrito na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.”
(Lucas 24:44)

Ensinar a Bíblia corretamente significa ajudar as pessoas a enxergar essa unidade.

Isso não significa transformar cada detalhe do Antigo Testamento em uma alegoria sobre Cristo. Significa interpretar cada texto dentro da história da redenção e compreender como toda a Escritura encontra seu cumprimento nele.

O objetivo final não é simplesmente fazer o aluno conhecer mais personagens, acontecimentos ou doutrinas, mas levá-lo a conhecer o Senhor revelado nas Escrituras.

7. Ensine pensando na próxima geração

Uma das maiores responsabilidades da Igreja é transmitir fielmente a verdade às próximas gerações.

Paulo escreveu a Timóteo:

“Você me ouviu ensinar coisas que foram confirmadas por muitas testemunhas confiáveis. Agora, ensine-as a pessoas dignas de confiança que sejam capazes de transmiti-las a outros.”
(2 Timóteo 2:2)

Aqui encontramos uma verdadeira cadeia de transmissão.

Paulo ensinou Timóteo.

Timóteo deveria ensinar pessoas fiéis.

Essas pessoas deveriam ensinar outras.

O princípio continua válido.

A Igreja não deve pensar apenas em preservar a verdade para o presente, mas também em preparar pessoas que sejam capazes de transmiti-la fielmente no futuro.

8. Comece onde Deus colocou você

Nem todos receberão um ministério público de ensino.

Nem todos serão pastores, professores ou teólogos.

Mas praticamente todo cristão possui alguma oportunidade de ensinar.

Pais ensinam filhos.

Avós ensinam netos.

Cristãos mais maduros ensinam novos convertidos.

Amigos podem conversar sobre aquilo que aprenderam nas Escrituras.

Uma pessoa pode começar ensinando outra.

Não precisamos esperar uma plataforma grande para sermos fiéis.

O discipulado começa frequentemente em situações simples, com uma Bíblia aberta e disposição para ajudar alguém a compreender a verdade.

9. Ensine outros a amar a Palavra

Por fim, nosso objetivo não deve ser produzir pessoas que simplesmente conheçam muitos conceitos bíblicos.

Queremos formar homens e mulheres que amem a verdade porque amam o Deus que a revelou.

O salmista expressa esse amor de maneira extraordinária:

“Como eu amo tua lei! Penso nela o dia todo!”
(Salmos 119:97)

Ensinar a Bíblia corretamente envolve mais do que explicar seu conteúdo. Devemos demonstrar, por nossa própria vida, que a Palavra de Deus é boa, verdadeira e digna de confiança.

Quando nossos alunos percebem que amamos as Escrituras, obedecemos a elas e encontramos nelas nossa esperança, o ensino deixa de ser mera transmissão intelectual e se torna discipulado.

Aplicações práticas

  1. Ensine a Bíblia dentro de sua própria casa.
  2. Procure ajudar cristãos mais jovens a desenvolver hábitos saudáveis de leitura e interpretação.
  3. Quando ensinar, mostre como chegou à conclusão a partir do texto.
  4. Não apresente opiniões pessoais como se fossem mandamentos bíblicos.
  5. Estude cuidadosamente antes de ensinar.
  6. Permita que a Palavra corrija primeiro a sua própria vida.
  7. Mantenha Cristo no centro de tudo o que ensina.
  8. Prepare outras pessoas para transmitirem a verdade depois de você.

Conclusão

Chegamos ao final desta série, mas não ao final da nossa jornada com as Escrituras.

Aprender a ler e entender a Bíblia é uma tarefa para toda a vida. Sempre haverá mais a aprender, novos contextos a compreender, verdades a aprofundar e aplicações a praticar.

Mas o objetivo nunca foi simplesmente terminar quarenta artigos.

O objetivo foi formar leitores mais fiéis da Palavra de Deus.

Agora, aquilo que aprendemos precisa continuar produzindo frutos.

Leia a Bíblia. Estude a Bíblia. Interprete a Bíblia corretamente. Viva pela Bíblia. E ensine outros a fazer o mesmo.

Que Deus nos conceda humildade para ouvir sua Palavra, sabedoria para compreendê-la, graça para obedecê-la e fidelidade para transmiti-la às próximas gerações.

A Palavra do Senhor permanece para sempre.

“A erva seca e as flores murcham, mas a palavra de nosso Deus permanece para sempre.”
(Isaías 40:8)

Que a Igreja de Cristo permaneça firmada nessa Palavra até o dia em que aquele para quem toda a Escritura aponta retornar em glória.

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