Ao longo desta série, aprendemos como ler, interpretar, aplicar, meditar e memorizar as Escrituras.
Todo esse aprendizado possui um propósito prático.
À medida que crescemos no conhecimento da Palavra de Deus, também devemos crescer em discernimento.
Isso é necessário porque nem todo ensino que cita a Bíblia realmente ensina a Bíblia.
Ao longo da história da igreja, os maiores desvios doutrinários raramente surgiram da rejeição aberta das Escrituras.
Na maioria das vezes, surgiram de sua distorção.
Satanás não costuma atacar apenas negando a verdade.
Frequentemente procura misturá-la com o erro.
Foi assim no Éden.
Foi assim durante a tentação de Jesus.
E continua sendo assim hoje.
Por isso, conhecer a Bíblia corretamente não é apenas um privilégio.
É uma necessidade para todo cristão.
Desde o Antigo Testamento, Deus advertiu seu povo sobre a presença de falsos profetas.
No Novo Testamento, esse alerta torna-se ainda mais frequente.
Jesus declarou:
“Cuidado com os falsos profetas, que vêm disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes.”
(Mateus 7:15)
Os falsos mestres não costumam apresentar-se como inimigos do cristianismo.
Muitas vezes utilizam linguagem cristã, citam versículos e afirmam falar em nome de Deus.
Por isso, o discernimento é indispensável.
Uma mentira completamente absurda dificilmente engana muitas pessoas.
O erro costuma parecer plausível justamente porque contém partes da verdade.
Satanás utilizou esse método desde o princípio.
Ao tentar Eva, ele não negou toda a revelação de Deus.
Ele distorceu aquilo que Deus havia dito.
Da mesma forma, durante a tentação de Jesus, o diabo citou as Escrituras, mas as aplicou de maneira indevida (cf. Mateus 4:5-7).
Isso nos ensina uma lição importante.
Conhecer versículos isolados não basta.
É necessário compreender corretamente seu significado e contexto.
Grande parte das falsas doutrinas nasce da retirada de textos de seu contexto.
Um versículo isolado pode parecer apoiar praticamente qualquer ideia.
Mas, quando lido dentro do fluxo do capítulo, do livro e da história da redenção, seu verdadeiro significado torna-se evidente.
Foi exatamente esse princípio que estudamos ao longo desta série.
O contexto não é um detalhe secundário.
Ele é um dos principais instrumentos que Deus nos concedeu para preservar a correta interpretação de sua Palavra.
Outro princípio fundamental do discernimento consiste em comparar Escritura com Escritura.
Deus não se contradiz.
Se determinada interpretação entra em conflito com o ensino claro de diversas outras passagens, algo está errado.
Passagens difíceis devem ser compreendidas à luz das mais claras.
Doutrinas importantes nunca dependem exclusivamente de um único texto obscuro.
A unidade das Escrituras protege o cristão contra interpretações isoladas e desequilibradas.
Ao longo da história, inúmeras heresias deslocaram o foco da obra de Cristo.
Algumas acrescentaram exigências humanas ao evangelho.
Outras diminuíram a divindade de Cristo.
Outras negaram sua humanidade.
Outras transformaram a salvação em mera conquista humana.
Paulo advertiu severamente:
“Contudo, ainda que nós ou um anjo dos céus anuncie um evangelho contrário ao que anunciamos a vocês, que seja amaldiçoado!”
(Gálatas 1:8)
O verdadeiro evangelho não pode ser alterado.
Toda doutrina deve ser examinada à luz da pessoa e da obra de Cristo.
Quando Cristo deixa de ocupar o centro, o erro já começou.
Existe uma tendência humana de buscar constantemente algo novo.
No entanto, a fé cristã foi entregue de uma vez por todas aos santos (cf. Judas 3).
Isso significa que a igreja não aguarda novas revelações capazes de alterar a doutrina apostólica.
Ao contrário, somos chamados a permanecer firmes na verdade já revelada.
O amadurecimento cristão não consiste em descobrir doutrinas inéditas.
Consiste em compreender cada vez melhor a revelação que Deus já concedeu nas Escrituras.
Sempre que ouvirmos uma pregação, lermos um livro ou assistirmos a um estudo bíblico, algumas perguntas podem ajudar.
Essas perguntas não substituem o estudo bíblico.
Mas ajudam a desenvolver discernimento.
O discernimento não é uma atividade puramente individual.
Cristo concedeu pastores e mestres para edificar sua igreja (cf. Efésios 4:11-14).
A comunhão cristã protege contra muitos erros.
Ao mesmo tempo, nenhum líder humano possui autoridade absoluta.
Os bereanos oferecem um excelente exemplo.
Lucas registra:
“Receberam a mensagem com grande interesse e examinavam as Escrituras todos os dias para ver se o que Paulo e Silas diziam era verdade.”
(Atos 17:11)
Eles ouviram os apóstolos com respeito.
Mas conferiram tudo pelas Escrituras.
Esse continua sendo o modelo bíblico.
À medida que crescemos no conhecimento bíblico, surge um novo risco.
O conhecimento pode produzir orgulho.
Paulo escreve:
“O conhecimento produz orgulho, mas o amor fortalece.”
(1 Coríntios 8:1b)
O objetivo do discernimento não é alimentar um espírito crítico ou arrogante.
Também não é transformar o cristão em alguém que procura erros em toda parte.
O verdadeiro discernimento anda lado a lado com a humildade.
Quem conhece mais as Escrituras deve amar mais a Deus e servir melhor ao próximo.
Falsos ensinos não produzem apenas erros teóricos.
Eles afetam a vida da igreja.
Podem gerar falsas esperanças, confusão, divisões e afastamento da verdade.
Por isso, o discernimento possui dimensão pastoral.
Proteger a pureza da doutrina é proteger o próprio povo de Deus.
Quando a igreja permanece firme na Palavra, ela permanece firme no evangelho.
Vivemos em uma época de acesso praticamente ilimitado à informação.
Sermões, vídeos, livros e publicações circulam diariamente pelas redes sociais.
Essa abundância oferece excelentes oportunidades de aprendizado.
Mas também amplia a circulação de erros.
Por isso, o cristão não deve perguntar apenas se um conteúdo é popular, emocionante ou bem produzido.
A pergunta fundamental continua sendo:
“Isso é fiel às Escrituras?”
A autoridade da Bíblia permanece acima da autoridade de qualquer pregador, autor, tradição ou movimento.
Esse compromisso distingue a fé cristã histórica de toda forma de relativismo religioso.
Escolha um sermão, estudo bíblico ou artigo cristão que você tenha ouvido ou lido recentemente.
Depois responda às seguintes perguntas:
Esse exercício ajudará você a desenvolver discernimento sem cair em espírito de crítica ou desconfiança permanente.
Discernir falsos ensinos é uma responsabilidade de todo cristão.
Isso não significa viver desconfiando de tudo ou procurando controvérsias.
Significa amar a verdade revelada por Deus e examiná-la cuidadosamente.
Quanto mais profundamente conhecemos as Escrituras, mais facilmente reconhecemos aquilo que não está de acordo com elas.
O discernimento não nasce da suspeita.
Nasce da familiaridade com a Palavra de Deus.
Entretanto, existe uma questão fundamental que surge naturalmente à medida que aprendemos a discernir a verdade do erro.
Se devemos avaliar todos os ensinos à luz da Palavra de Deus, isso significa que as Escrituras realmente possuem tudo o que o cristão precisa para a fé e para a vida?
A Bíblia é suficiente como autoridade final para a igreja, ou precisamos de novas revelações, tradições ou experiências para complementar aquilo que Deus já revelou?
Esse será o tema da próxima parte desta série.