Ele acordou convencido de que a batalha daquele dia seria simples. O inimigo, afinal, era evidente: vermelho, ruidoso, agressivo, brandindo uma foice e um martelo como quem anuncia sua própria intenção. “Contra este, lutarei em nome do Senhor”, disse a si mesmo, com o peito cheio e a mente leve.
E lutou.
Resistiu aos gritos, às promessas de pão sem Deus, de justiça sem arrependimento, de um reino erguido pelas mãos dos homens. Rejeitou tudo com fervor sincero. Citou, ainda que de memória imperfeita, que “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” (Salmos 127:1). E, por um momento, pareceu firme.
Mas a luta se alongou. O cansaço veio, e com ele a necessidade de ajuda.
Foi então que viu outro.
Não vinha em fúria, mas em solenidade. Vestia batina, trazia mitra sobre a cabeça e carregava, com mãos cuidadosas, um ídolo trabalhado. Seus passos eram lentos, sua voz, mansa. Falava de tradição, de autoridade, de caminhos antigos. Prometia ordem onde havia caos, reverência onde havia ruído.
“Este não pode ser o mesmo inimigo”, pensou o cristão ingênuo. “Este fala de Deus.”
E, sem perceber, aproximou-se.
O novo aliado não negava Deus — apenas o moldava. Não rejeitava a verdade — apenas a envolvia em camadas, até que se tornasse irreconhecível. Não afastava Cristo — apenas o dividia, repartindo Sua glória entre imagens e homens.
O cristão, cansado da luta aberta, aceitou a companhia.
E lutaram juntos.
Mas algo estranho aconteceu: o diabo vermelho já não parecia tão distante. Seus gritos ecoavam nas mesmas direções que os sussurros do outro. Suas promessas, embora vestidas de ferro e fogo, encontravam eco nas cerimônias e nos símbolos. O que um impunha pela força, o outro estabelecia pela aparência de santidade.
Foi então, tarde demais, que o cristão percebeu.
A foice e o martelo haviam caído. A mitra também. O ídolo foi posto de lado.
E ali, diante dele, não havia dois inimigos.
Havia apenas um.
O mesmo que, desde o princípio, se disfarça conforme a ocasião — ora como perseguidor declarado, ora como anjo de luz (cf. 2 Coríntios 11:14). O mesmo que odeia a verdade, seja atacando-a frontalmente, seja adulterando-a com devoção aparente.
O cristão caiu de joelhos.
Não por derrota, mas por entendimento tardio.
Pois aprendera, à custa de sua ingenuidade, que nem todo aliado na guerra pela verdade luta pela verdade — e que todo desvio, seja pela violência ou pela falsa piedade, conduz ao mesmo abismo.
E ali, no silêncio que restou, compreendeu que sua luta nunca deveria ter sido guiada pela aparência dos inimigos, mas pela fidelidade à Palavra que não muda (cf. Isaías 8:20).